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O alentejo profundo

Paulo Laureano
Paulo Laureano Viagens

Com a Yamaha XT350 há 6 meses nas minhas mãos parti para esta viagem de três dias algures no "Alentejo profundo"; para lá do Guadiana sem sair de Portugal. :-)

A ideia era fazer campismo selvagem, durante duas noites, e passar os dias a passear por estradas secundárias. Participaram na viagem a minha mota e a Renault 4L do Óscar. Na mota fui sempre sem pendura, a 4L levou a Marlene, "Bug" (o nosso cão), um casal amigo (Óscar e Guida) e a filha (Filipa).

O grupo que fez a viagem, com excepção da Marlene que estava a tirar a fotografia
Eu e o Bug à esquerda, Guida, Óscar e Filipa à direita

1º dia - De Lisboa a Barrancos

Partida de Lisboa, passagem por Évora onde almoçámos, Reguengos de Monsaraz e chegada a Barrancos...

Foi um fim de semana prolongado o escolhido para a nossa aventura. Havia bastante transito à saída de Lisboa e na auto-estrada até ao ponto em que se faz o desvio para o Algarve. A partir dessa altura, em que o transito desapareceu da estrada, foi muitíssimo agradável "papar" kilometros na XT a 130/140 km/hora, de t-shirt e luvas de Verão, com um calor extremamente agradável e sem vento.

Depois de "almoçados" em Évora eu e o Oscar dormimos uma bela sesta e as senhoras partiram a descoberta da cidade. Esta é, sem duvida, a melhor forma de passar a hora do calor em pleno Alentejo! Por volta das 4 da tarde partimos para a lindíssima "Reguengos de Monsaraz" à qual se recomenda vivamente uma visita. Ao final do dia, e com o objectivo de jantar por lá, partimos para "Barrancos"... jantamos numa explanada, já de noite, no meio de barrancos. A comida era divinal e a mistura entre Portugueses e Espanhóis tornava difícil distinguir de que lado da fronteira se estava. Eram cerca onze da noite quando partimos a procura de um local para acampar... BIG MISTAKE!

Fazer campismo selvagem implica procurar locais onde não passe muita gente, relativamente escondidos, com um mínimo de condições para se montarem as tendas, etc. Fazer isto à noite não é propriamente simples e a aventura foi memorável.

Logo à saída de "Barrancos" descobrimos uma estrada de terra por onde resolvemos tentar a sorte; não tivemos muita. Eu comi uns quilos de areia levantada pela 4L durante umas horas e o melhor local que encontrámos para acampar estava cheio de mosquitos... descobrimos esse detalhe quando à luz da 4L e isso é "tarde demais". Lá fomos a procura de outro local e encontrámos um... que parecia perfeito exceptuando uma série de "marcas estranhas" no chão.

De manhã acordámos, no meio de umas centenas de vacas, com um simpático pastor que nos disse que a terra onde montámos tendas era dele e que podíamos ficar à vontade por lá, assim como instruções sobre o melhor caminho a seguir para Serpa...


2º dia - De Barrancos ao Pomarão "Serpa", "Pulo do lobo", "Minas de São Domingos" e "Pomarão". Um dia de sonho.

A viagem do local do acampamento ao pequeno almoço em Serpa não tem grande história; estradas agradáveis e paisagens incríveis do nosso belíssimo e abandonado Alentejo. Serpa, com o seu castelo, é uma bonita cidade Alentejana que vale a visita. Depois de um bom pequeno almoço partimos para o "pulo do lobo".

Do "pulo do lobo" até às "Minas de São Domingos" fomos por caminhos de terra batida (a andar assustadoramente depressa) para se descobrir a paisagem "irreal" das "minas de São Domingos".

Bom... o cenário não é de todo fácil de descrever! Lagos vermelhos, uma cor de terra "vermelha acastanhada" e edifícios, pontes e armazéns que parecem tirados de um filme sobre sobreviventes de um holocausto nuclear é o que espera os visitantes das minas abandonadas. Mais radical que os cenários do "Mad Max", este bocadinho do Alentejo é único e vale uma visita, porque ninguém está a espera do cenário com que vão deparar.

Honestamente custa a crer que estamos no mesmo planeta e não há paralelo possivel entre este "bocadinho de Alentejo" e todo o resto da viagem. Uns kilometros depois vem a povoação, com o mesmo nome mas radicalmente diferente do cenário das minas abandonadas, com uma agradável paisagem de cores mais "normais"... junto à "barragem da tapada grande" há uma agradável pousada onde se come bastante bem e onde voltaríamos no dia seguinte para almoçar. Depois de uma bica e uns refrescos partimos para o "Pomarão" onde tínhamos planeado passar a noite.

O "Pomarão" é uma vila minúscula, lindíssima, construída na encosta inclinadíssima e imponente montanha mesmo junto ao Guadiana (enorme, em contraste com o que vimos no "pulo do lobo"). Com uma população de umas duas ou três dezenas de pessoas, casas de banho (impecáveis, asseadíssimas e utilizáveis) e locais para lavar roupa e loiça públicos. Um "clube"/"café" local serve as necessidades da povoação, e serviu as nossas, e rapidamente nos indicaram o melhor local para o acampamento.
Ainda de dia montámos as tendas e preparámos o jantar. Deviam ser menos de onze e meia quando nos deitamos.

No dia seguinte, depois de tudo arrumado e lavado, por volta da hora do almoço, partimos para a estalagem com restaurante junto à barragem onde havíamos estado na véspera...


3º dia - Do Pomarão a Faro.

Passagem pelas "Minas de São Domingos" para almoçar, sesta em Mértola e viagem para o Algarve por estrada de montanha... sempre junto ao Guadiana com Espanha ali tão perto...

Uma refeição "tipicamente alentejana" para todo o grupo (excepto eu que comi um belo hamburger com batatas fritas... ) no agradável pátio interior da estalagem, junto à barragem da Tapada Grande, caiu muito bem! A primeira noite de acampamento tinha sido algo "agitada" e a segunda, por contraste, extremamente relaxante e agradável... esta refeição foi o complemento perfeito para uma noite bem passada. Partimos de seguida para Mértola...

De Mértola conheci a Igreja, que é um dos locais mais altos da cidade, onde dormi uma sesta magnifica. O resto do grupo, exceptuando o "Bug" que ficou comigo, foi passear e conhecer a cidade... julgando pelo pouco que eu vi a cidade, a partir do adro da igreja, é muito bonita, localizada numa colina, com o Guadiana a passar mesmo ao lado.

Percorrer o caminho de Mértola ao Algarve, sempre em alcatrão, junto ao Guadiana, era o plano para o final da tarde. O cenário é lindíssimo. A estrada bastante boa e só a pena de abandonar o Alentejo e entrar no "Algarve dos turistas" me deixava menos contente.

O regresso "à civilização" tinha de acontecer infelizmente e a distância entre a vila do "Pomarão" e o "Algarve dos turistas" é infinitamente maior que a distancia que a XT e a 4L percorreram... :-(


Considerações...

Um passeio de fim de semana prolongado que recomendo vivamente! Para quem tenha umas tendas e as consiga levar na mota, ou como no meu caso tenha um amigo com um "jeep" ou "4L" (ou seja, qualquer coisa que possa andar "fora de estrada"), é um passeio barato (preço da gasolina e da comida!) e muito giro.

O "Alentejo profundo" no Verão é magnifico para andar de mota e os Alentejanos são excelentes anfitriões. Cuidado com os horários que as bombas de 24 horas não abundam, nas vilas e aldeias dificilmente se compra alguma coisa depois das 19 horas e os restaurantes (quando se encontram) fecham relativamente cedo. Não esquecer que o campismo selvagem é ilegal pelo que se sujeitam a uma multa se forem "apanhados"...